Tecnologia invisível a olho nu

O desenvolvimento no Brasil de produtos criados a partir da nanotecnologia — manipulação de materiais numa escala atômica e molecular — vem unindo empresas inovadoras de pequeno porte a gigantes da indústria. No intervalo de 2008 a 2011, o total de empresas envolvidas com nanotecnologia no país quase dobrou, passando de 608 para 1.132, segundo dados da Pesquisa de Inovação (Pintec), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).


Um dos motores dessa expansão foi a indústria de produtos de higiene pessoal e cosméticos. “É um segmento onde a nanotecnologia está indo de vento em popa”, afirma Maria Sueli Soares Felipe, coordenadora de Inovação da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), entidade ligada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. “O uso da nanotecnologia varia muito de acordo com o setor, mas se intensificou nos últimos três a cinco anos.” Sediada em Florianópolis (SC), a Nanovetores foi criada em 2008 mas já conta com uma carteira de mais de 150 clientes, com destaque para pesos-pesados do mercado de cosméticos (Natura, L’Oréal e O Boticário). A principal linha de negócios da empresa são os encapsulados nano, partículas que constituem invólucros minúsculos, usados — por exemplo — para proteger o princípio ativo de um cosmético. “Temos mais de 30 produtos desenvolvidos para a área cosmética e outros dez para o segmento têxtil”, conta Betina Giehl Zanetti Ramos, diretora técnica da Nanovetores.


Um dos produtos desenvolvidos na área têxtil, em parceria com a malharia Malwee, foi um tecido com propriedades hidratantes, resistente a 20 lavagens.


A olho nu, as cápsulas fabricadas pela empresa têm o aspecto visual do leite. Com a utilização dos chamados “gatilhos de liberação de ativos”, os invólucros podem soltar substâncias a partir de variações no PH, na temperatura e em muitos outros fatores.


Os resultados positivos nas áreas têxtil e de cosméticos alimentam os planos da Nanovetores de diversificar seus negócios a médio prazo. “Temos interesse no segmento de medicamentos, onde ainda não atuamos, mas esta é uma área com um timing longo de desenvolvimento de produtos, além de exigir mais investimentos e estudos”, explica Betina, ressaltando que a companhia deve levar pelo menos cinco anos para estrear no mercado farmacêutico.


A Nanovetores recebeu um aporte no valor de R$ 3 milhões do fundo Criatec, nascido a partir de uma iniciativa do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e mantido por um consórcio de gestores.


Baseada em São Carlos (SP), a brasileira Nanox seguiu uma trajetória inversa: iniciou suas atividades em 2005 com uma linha de negócios variada, que incluía desde equipamentos para a produção de nanopartículas até vidros autolimpantes.


Acabou focando sua atuação no nicho de materiais nanoestruturados com propriedades bactericidas e antifúngicas. “O mercado ainda é pequeno para algumas aplicações”, reconhece Luiz Gustavo Pagotto Simões, diretor-presidente da Nanox e um dos três sócios fundadores da empresa.


Desde 2006, a Nanox desenvolve uma parceria com a Taiff, fabricante brasileira de secadores de cabelo e outros produtos elétricos voltados para o mercado de beleza.


Uma tinta antibacteriana elaborada pela Nanox foi usada para revestir peças de secadores e chapas de alisamento. Para os próximos anos, a estratégia da empresa inclui a expansão para o ramo de embalagens alimentícias. “Embalagens que misturam nanomateriais com plástico podem aumentar o tempo de prateleira de um produto”, diz Simões. A Nanox já recebeu recursos de um fundo de capital de risco e de agências governamentais de fomento.

 

Fonte: Brasil Econômico