Brasileiras investem em inovação e se aproximam de multinacionais

Os investimentos das empresas farmacêuticas brasileiras em inovação estão crescendo e já se aproximam da média das multinacionais do setor. Segundo dados compilados pelo grupo Farma Brasil, que representa os laboratórios farmacêuticos de capital nacional, as grandes nacionais investiram juntas R$ 516,5 milhões em pesquisa e desenvolvimento em 2013, o que representou uma média de 6% do faturamento das companhias.

O montante considera os recursos aplicados em inovação pelos laboratórios Libbs, Aché, Biolab, EMS, Eurofarma, Hypermarcas, União Química, e Cristália, que estão entre as maiores do setor. E revela um crescimento de 22% em relação a 2012, quando as empresas desembolsaram R$ 423,3 milhões para pesquisa.

"Não falta muito para o Brasil alcançar as multinacionais neste quesito. Este é um dos setores da economia que podem definitivamente ter escala global de inovação", afirma Reginaldo Arcuri, presidente da Farma Brasil. Em geral, as empresas multinacionais investem cerca de 10% do faturamento em inovação no exterior.

A proporção dos investimentos sobre o faturamento das brasileiras também surpreende quando comparada com a indústria farmacêutica em geral - somando as nacionais e multinacionais que atuam no país. Um estudo do BNDES de 2013 mostra que os investimentos deste setor não ultrapassam os 2,4% da receita das companhias.

O valor total de investimentos não inclui as duas superfarmacêuticas criadas em 2012 com o apoio do governo federal para a produção de biossimilares: a Orygen (formada pela Eurofarma e a Biolab) e a Bionovis (joint venture entre Aché, EMS, Hypermarcas e União Química). As duas empresas ainda não têm receita, e estão planejando investimento conjunto de R$ 1 bilhão nos próximos anos, valor que inclui a construção de unidades e a produção de medicamentos. Juntas, as empresas do grupo Farma Brasil representam 75% do faturamento da indústria nacional farmacêutica, segundo dados da consultoria IMS Health.

"Hoje o Brasil tem empresas sólidas que estão se tornando multinacionais e são capazes de progredir a ponto de fazer inovação radical no país", afirma Martha Penna, vice-presidente de Inovação da Eurofarma. Com faturamento anual de R$ 2,2 bilhões, a empresa investe 6% dos resultados em P&D e deve aumentar esta proporção. "Estamos abrindo novas frentes de projetos que vão resultar em investimentos maiores. O interesse dos acionistas é levar a empresa na direção da inovação. Esta é minha função aqui", diz a executiva.

O foco das empresas nacionais em geral é na inovação incremental, ou seja, na reformulação do medicamento já existente, com ganho de qualidade, e na criação de novas aplicações para esses produtos. Há ainda o desenvolvimento de medicamentos em novas plataformas tecnológicas, como a nanotecnologia. Segundo Arcuri, deste modo, as brasileiras estão traçando o caminho do aprendizado para a inovação radical, que envolve a descoberta e desenvolvimento de novas moléculas.

Nesse processo de aprendizagem, as parcerias internacionais têm sido fundamentais. A Eurofarma, por exemplo, prospecta pequenas empresas de biotecnologia estrangeiras para o desenvolvimento clínico conjunto em oncologia. Outros exemplos são PDPs (Parceria para o Desenvolvimento Produtivo), como as em que estão envolvidas a Orygen e a Bionovis.

Estimuladas pelo governo, essas parcerias envolvem a transferência de tecnologia de produção de medicamentos de empresas estrangeiras e nacionais para laboratórios públicos. "Começa assim, com biossimilares, e aí no futuro passa-se a desenvolver moléculas inovadoras", explica Arcuri.

Para o laboratório Libbs, serão necessários mais cinco anos para o desenvolvimento de moléculas inovadoras. Com 23 estudos clínicos em andamento atualmente no país, a empresa já trabalha com produtos de ruptura, tanto biotecnológicos, quanto sintéticos. Segundo Márcia Martini Bueno, diretora de relações institucionais, os investimentos em inovação da companhia que representavam 6,3% do faturamento em 2012, subiram para 10,2% em 2013, e neste ano devem superar os 14%. "O futuro da indústria caminha para isso", afirma a executiva.

Para a inovação radical, o grupo EMS está apostando fora do Brasil. No ano passado, anunciou a criação da Brace Pharma, empresa com base nos Estados Unidos voltada para o desenvolvimento de moléculas consideradas promissoras. A empresa nasceu com caixa de US$ 300 milhões.

Segundo os executivos consultados pelo Valor, o grande momento de inflexão da indústria nacional, que gerou condições para esse crescimento da pesquisa e desenvolvimento, foi o processo de investimento nos genéricos. Além de estimular as empresas a produzirem as cópias, esse momento foi acompanhado por mudanças no marco regulatório e pela aplicação de políticas públicas direcionadas para o setor. "Houve um salto qualitativo de produção", explica Arcuri. A partir desse momento, houve também um reforço no caixa das empresas. No ano passado, o setor farmacêutico no Brasil acumulou receita total de R$ 57,6 bilhões, alta de 16% ante 2012.

 

Fonte: Valor Econômico