Preços de medicamentos sobem a partir desta segunda-feira

São oito comprimidos pela manhã, dois ao meio-dia, oito à noite e a dose diária de insulina. Com problemas cardíacos, diabetes, hipertensão e gota, o rodoviário aposentado Carlos Alberto Pinheiro, 54 anos, faz parte da multidão de brasileiros que gasta boa parte da renda com remédios e sofre pelo bolso dolorido a cada reajuste.

Semana passada, o governo federal confirmou que está autorizado a partir desta segunda-feira (31/3) o aumento de até 5,68% nos medicamentos. Beneficiário do INSS, Pinheiro desembolsa em média 20% da renda em remédios. Como os problemas de saúde não são poucos, tem ainda a sorte de conseguir a maior parte dos medicamentos na rede básica de saúde da Capital e com as farmácias do Estado. Mas dois produtos para hipertensão e diabetes que usa de forma contínua estão em falta. Ou seja, o aperto no orçamento parece que vai ser ainda maior.

— Não tem jeito. Alguma conta a gente acaba atrasando. Também é preciso cortar a compra planejada de mobília para a casa, roupas e alguma atividade de lazer. E ainda tenho de rezar não ocorrer imprevistos — diz Pinheiro, lembrando ainda que tem recomendação médica para ter uma alimentação rica em frutas, verduras e hortigranjeiros, itens que têm subido acima da inflação.

Também usuário de remédios de uso contínuo, o presidente da Federação dos Trabalhadores Aposentados e Pensionistas do Rio Grande do Sul (Fetapergs), José Pedro Kuhn, lembra que, em regra, os idosos costumam sofrer mais com o peso do reajustes dos remédios.

— A farmácia pesa mais no bolso dos aposentados — afirma Kuhn.

Como os percentuais de reajuste tem três níveis, o Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos no Estado de São Paulo (Sindusfarma), que engloba cerca de 90% das empresas do setor no país, calcula que o aumento médio ponderado dos medicamentos ficará em 3,52%.

De acordo com a entidade, os percentuais decididos pelo governo têm sido inferiores à variação de custos, despesas com mão de obra e inflação. Calcula que, de 2006 a 2013, enquanto a inflação acumulada pelo INPC foi de 49,13%, os salários aumentaram 67,77% e o reajuste de preços dos medicamentos ficou em 35,76% na média. Pinheiro estranha o cálculo. Segundo ele, apenas um remédio para o coração que toma diariamente há uma década e meia dobrou de preço nos últimos cinco anos.

O presidente executivo do Sindusfarma, Nelson Mussolini, também reclama. Alega que, como as contas das indústrias não fecham, as empresas vão investir menos para desenvolver novos medicamentos. Para Mussolini, uma das saídas para baratear os remédios seria diminuir a carga tributária. Segundo a entidade, enquanto no país os impostos representam 33,9% do preço dos medicamentos, na França o percentual cai para 2,1% e em outros países como EUA e Colômbia é zero.

— A carga tributária sobre os remédios no Brasil é pornográfica — reclama Mussolini.

Os índices de reajuste

5,68% é o reajuste aplicado em medicamentos com participação de genéricos igual ou superior a 20%. São 53,30% do total de remédios tabelados, como anti-hipertensivos (ex.: atenolol), para colesterol (ex.: sinvastatina), diabetes (ex.: metformina) e antiácidos, analgésicos e antibióticos.

3,35% é o percentual para medicamentos com participação de genéricos igual ou superior a 15% e abaixo de 20%. São 0,84% dos medicamentos tabelados, como o anestésico Lidocaína

1,02% é o reajuste para medicamentos com participação de genéricos abaixo de 15%. São 45,86% dos remédios tabelados, como os para o tratamento de câncer.

Fonte: Jornal Zero Hora