Gargalos crônicos não detêm expansão da indústria farmacêutica

02/09/2014 - Os negócios da indústria farmacêutica vão muito bem, mas o segmento continua se queixando de dificuldades crônicas. Há muitos sintomas dessa boa saúde. Entre eles, a alta no faturamento que, segundo prognóstico do IMS Health, ficará em 14%, totalizando RS 44 bilhões em 2014. A área de pesquisa e desenvolvimento - menina dos olhos do setor - chega a reservar até 20% dos ganhos na busca de novos medicamentos. O resultado é um volume maior de lançamentos. A parceria entre laboratórios estrangeiros e nacionais também sinaliza boa recuperação depois de perder fôlego com a última crise internacional. A indústria farmacêutica nacional, embora de forma tímida, aposta na internacionalização, começando pela América Latina.

No entanto, apesar do diagnóstico animador, o setor continua se queixando de dois males crônicos. Um é a morosidade por parte da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em liberar medicamentos que, no último ano, teria se agravado. Outro é a pesada carga tributária que recai sobre o setor, que está na casa de 33% e permanece uma das mais altas do mundo.

"Defendemos mais rigor na liberação de medicamentos por parte da Anvisa, mas esse rigor não pode ser confundido com burocracia desnecessária e inexplicável. Os Estados Unidos e a Europa examinam os mesmos produtos em velocidade muito maior, e não são menos exigentes que o Brasil", diz Antonio Britto, presidente-executivo da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma). Em alguns casos, a demora chega a beirar três anos, observa. "O mesmo medicamento leva entre três e quatro meses, no máximo, para ser liberado no mercado europeu e americano, enquanto no Brasil chega a quase três anos."

A demora por parte da agência vem tirando o sono dos executivos. "A Anvisa tem sido motivo de preocupação para nós, porque tivemos um período de melhoria na aprovação de produtos, mas, em particular no segundo semestre de 2013 e início de 2014, o tempo de aprovação piorou em mais ou menos um ano. A média de espera na fila hoje passa dos três anos, enquanto a expectativa era que esse processo fosse agilizado, o que não aconteceu", afirma Wilson Borges, presidente da Medley Indústria Farmacêutica. Segunda no ranking entre as fabricantes de genéricos, a companhia tem cerca de dez produtos na fila à espera de aprovação.

Para o presidente da Novartis Brasil, Adib Jacob, a demora pode significar "o óbito do paciente". "Ainda temo que esperar, no mínimo, dois anos para a aprovação de um medicamento. Isso pode provocar a morte de pacientes como os portadores de câncer, por exemplo. E um problema sério de saúde pública, mas não é visto dessa forma."

Já a Pfizer informa que a espera oscila entre 18 e 24 meses, "dependendo se tudo andar direito". "Se houver algum percalço no meio do caminho, como greves que tivemos no passado, os prazos podem se estender", afirma Eurico Correia, diretor-médico da Pfizer. Ciro Mortella, diretor de assuntos corporativos da empresa, acrescenta que mais grave que a falta de agilidade e desburocratização é a falta de previsibilidade. "Se a gente faz um medicamento no Brasil, isso impacta o mundo inteiro. Se a demora é imprevisível, muitos países são prejudicados."

Pelas contas da Anvisa, a demora não é tão longa assim e os prazos se justificam pelo enorme aumento dos processos. Segundo a agência, "o número global de demandas aumentou 68,3% nos últimos dez anos, passando de 39.516 para 66.520". "Atualmente, o tempo desde a entrada até a finalização do processo é de cerca de 512 dias para medicamentos novos e 997 para medicamentos genéricos", afirma Ricardo Borges, gerente de medicamentos da Anvisa. Hoje, há 1.495 genéricos e similares para análise, 33 medicamentos novos e 84 inovadores. "A ampliação do complexo produtivo brasileiro e o acesso destes produtos aos mercados internacionais são um dos principais desafios para garantir ao Brasil uma indústria forte e alinhada às necessidades nacionais."

Outra queixa dos 55 laboratórios que integram a Interfarma - e que respondem por mais de 53% do mercado brasileiro de medicamentos - tem a ver com a carga tributária que incide sobre o setor. "O medicamento, em média, tem uma carga tributária de 33%, e isso se tornou um inimigo ao acesso", diz Britto. Segundo estudo da entidade, 86 tributos e taxas são cobrados ao longo da cadeia de produção e é uma das mais altas do mundo. Enquanto a média internacional, em relação ao preço final do medicamento, é de 6,3%, no país ele é cinco vezes maior.

Nelson Mussolini, presidente-executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos no Estado de São Paulo (Sindusfarma), acrescenta que o nível de correção salarial está sempre acima do reajuste de preços, gerando um descompasso na rentabilidade do setor. "Enquanto o aumento de preços fica na casa dos 3%, os reajustes salariais giram entre 7% e 7,5% nos últimos anos. Outro fato que também pressiona a rentabilidade, segundo ele, é a variação cambial. "Isso pode atrapalhar os investimentos futuros na área de modernização das fábricas e em novos produtos."

Os números da indústria, no entanto, não indicam retração, nem em faturamento, nem em investimento em pesquisa. A Novartis, por exemplo, investe anualmente cerca de USS 10 bilhões entre pesquisa e desenvolvimento, algo ao redor de 20% das vendas totais. "Nos próximos cinco a dez anos, a companhia lançará pelo menos cinco produtos novos a cada ano. São muitas as pesquisas nas áreas de biológicos destinados a doenças respiratórias, câncer, doenças do sistema nervoso, como esclerose múltipla, entre outras", garante Jacob, presidente da Novartis. Ele classifica 2014 como um ano "bastante saudável" e de sucesso para a empresa, que espera uma receita da ordem de R$ 3,5 bilhões, alta de 15% sobre o ano anterior.

Na mesma esteira, a Medley Indústria Farmacêutica pretende lançar 23 novos produtos nos próximos três anos, dos quais 80% na área de genéricos. "Serão cerca de seis a sete produtos por ano até 2016. A maior parte na área de cardiologia, sistema nervoso central e alguns produtos para gastroenterologia e outros inéditos", diz Wilson Borges, que prevê um acréscimo este ano de 12% na receita sobre 2013, somando R$ 2,8 bilhões. "O investimento em 2014 deverá aumentar entre 10%e 12% sobre o volume aplicado no ano passado em pesquisa e desenvolvimento. Os genéricos no Brasil representam 28% do mercado total, e a Medley tem uma participação de 16% nesse mercado. Em países mais maduros, a participação de genéricos é de 60% e cresce 1% ao ano."

A Bayer, que em 2013 desembolsou 3,2 bilhões de euros em pesquisa e desenvolvimento, o equivalente a 7,9% das vendas, injetou 64% desse volume na área de saúde. Para 2014, há uma previsão de elevação no investimento, com expectativa de alcançar 3,5 bilhões de euros. No médio prazo, entre 2014 e 2016, a Bayer planeja investir, globalmente, 11,2 bilhões de euros apenas em pesquisa. "No ano passado, o Brasil passou a ser o quarto maior mercado para a Bayer globalmente, um marco bastante expressivo e que reforça a importância e o potencial do país", ressalta Theo van der Loo, presidente do grupo Bayer no Brasil.

Com investimentos da ordem de US$ 7 bilhões por ano destinados a pesquisa e desenvolvimento, a Pfizer aguarda a liberação pela Anvisa de dois medicamentos para tratamento de artrite reumatóide e câncer de pulmão. "Temos produtos em desenvolvimento em várias áreas, como oncologia, sistema nervoso central, cardiologia, vacinas, doenças crônicas reumáticas e diabetes. A companhia tem forte presença nessas áreas", afirma Correia, da Pfizer.

A parceria entre laboratórios nacionais com estrangeiros ganha novos contornos. "O mercado de aquisições e fusões ficou um pouco paralisado até a última crise financeira internacional e agora teve uma retomada por conta da recuperação de países desenvolvidos e da própria liquidez financeira nesses mercados", diz Britto. Outro fenômeno que ganha dimensão, segundo ele, é que as empresas grandes cada vez mais optam por diversificar e ampliar seus portfólios. "E uma tendência mundial. Entre as empresas de nichos, por exemplo, aquelas que produzem apenas medicamentos biológicos tendem naturalmente a buscar companhias semelhantes que, ao serem adquiridas, geram aumento de escala e redução de custos fixos."

Britto lembra que não se trata apenas de um movimento de fora para dentro, mas também de dentro para dentro e de dentro para fora. "As empresas brasileiras buscam a aquisição de laboratórios argentinos. Isso significa que começa um movimento de internacionalização na América Latina. É muito limitado, mas é um sinal", diz. Ele se refere ao Cristália e Eurofarma.

O grupo União Química - desde 1936 no mercado e uma das maiores farmacêuticas nacionais - optou por seguir o caminho da parceria. Para elevar o faturamento e diversificar a produção, a companhia fechou acordo com a suíça Novartis, assumindo a fábrica de Taboão da Serra, em São Paulo. A União Química continuará produzindo os medicamentos dessa unidade, enquanto a Novartis deterá o direito de distribuição e dos registros desses produtos. Além de fabricar os medicamentos da Novartis, a empresa vai terceirizar a produção para outras empresas. "A produção começa em janeiro de 2015, e essa aquisição significará um aumento de pelo menos R$ 200 milhões na receita em 2015", afirma Fernando de Castro Marques, presidente do grupo União Química. Com laboratórios instalados em Pouso Alegre (MG) e Brasília (DF), a União projeta para o ano uma receita de RS 740 milhões.

Na planta de Taboão da Serra, a Novartis chegou a fabricar 20 milhões de unidades por mês, e hoje produz apenas 7 milhões. "A União quer aproveitar essa capacidade ociosa e, além de fabricar os medicamentos da Novartis, vai terceirizar a produção para outras companhias." A empresa analisa a abertura de capital do grupo a partir de 2015. Décima maior produtora de medicamentos em unidades, de acordo com o IMS Health, o grupo poderá ficar entre as cinco maiores em capacidade de produção.

 

Fonte: Valor Econômico (por Rosangela Capozoli)