Combinação de novas drogas mira câncer

drageasA imunoterapia tem ganhado cada vez mais espaço entre as armas contra o câncer. A estratégia de tirar o “disfarce” do tumor para que o próprio organismo lute contra a doença tem tido bons resultados e, em geral, com poucos efeitos colaterais. O consenso é de que ela dominará o futuro da oncologia.

Agora, o uso de múltiplas drogas simultaneamente parece ser a próxima fronteira para combater a doença. Entre os vários estudos apresentados no encontro anual da Asco (Sociedade Americana da Oncologia Clínica), que terminou nesta terça (7/6) em Chicago, casos de sucesso dessas terapias combinadas ganharam destaque.

 

O objetivo na luta contra o câncer é buscar moléculas melhores e menos agressivas ao organismo. Como juntar moléculas de alta toxicidade para obter melhores resultados é praticamente impensável, é aí que a eficaz, menos danosa e cara imunoterapia ganha espaço.

 

Dois anticorpos imunoterápicos, o nivolumabe e o ipilimumabe (ambos da farmacêutica Bristol-Myers Squibb), se combinados, podem ter um efeito bastante positivo no tratamento do melanoma (tumor de pele).

 

Foi esse, aliás, o primeiro tipo de câncer a chamar atenção com a nova estratégia, por volta de 2010. De acordo com as farmacêuticas, não há obstáculo nem mesmo em testar combinação entre drogas concorrentes. “Isso interessa aos dois lados”, afirma Ronit Simantov, líder médica do setor de oncologia da Pfizer.

 

Para ela, se não houvesse essa disposição de colaborações, seriam desperdiçadas oportunidades de trazer um melhor tratamento aos pacientes — o que também significaria menos vendas.

 

Nessa disputa por espaço também está a MSD com sua droga pembrolizumabe, que vem sendo estudada em várias doenças, como melanoma, tumores do sistema digestivo e de pulmão de pequenas células.

 

“Na quimioterapia clássica já havia combinação de drogas. O que acontece agora é que foi aberta a ‘caixa’ da imunoterapia. Seus mecanismos estão começando a ser conhecidos agora, e mexer nessas chavinhas pode ser o caminho”, diz a diretora médica da MSD Luciana Fanti. “Mas às vezes há 40%, 50% de resposta. Nem sempre adianta insistir com a imunoterapia se o sistema imunológico nem enxergou o tumor”, diz ela.

 

Dinheiro

O problema é como pagar por esses medicamentos. O custo do nivolumabe pode ser de mais de US$ 150 mil, e o do ipilimumabe, de mais de US$ 100 mil. A combinação sai cara, mas com sobrevida quatro vezes maior do que a do uso isolado do “ipi”.

 

“Combinação de vários tratamentos não funciona para todo mundo com câncer. É muito caro, não há sistema que aguente. Temos de conhecer cada vez mais os tumores e achar os biomarcadores para saber em que casos vale a pena gastar mais”, afirma Luciana. “Pra quem trabalha com pesquisa desenvolvimento, não faz sentido ignorar a questão do acesso ao paciente”, diz diretor médico da Bristol Roger Miyake.

 

Para o oncologista Gilberto Lopes Jr, do Grupo Onco clínicas, as farmacêuticas geralmente recuperam o alto dinheiro investido em pesquisa e desenvolvimento com a venda das novas drogas em países desenvolvidos.

 

O custo de produção, envase e distribuição para países pobres não teria grande impacto nas receitas se a droga fosse vendida a eles a um preço menor — o que tem se tornado uma prática cada vez mais comum. Isso dá esperança de que o acesso aos mais novos tratamentos inovadores com imunoterápicos possam chegar mais rapidamente às redes privada e (quem sabe) pública do país.

 

Fonte: Folha de S. Paulo