Radical na descoberta

inovacao-saudeVital para o setor farmacêutico, a inovação é o diferencia​l​ com que as empresas contam para manter-se atualizadas e competitivas. O processo de criação de um medicamento é longo, complexo e caro. Colocar uma nova medicação no mercado pode levar 15 anos, com custo médio de USS 1,5 bilhão.

No ano passado, 22,2% das empresas farmacêuticas instaladas no Brasil aumentaram os investimentos em inovação, enquanto 44,4% não alteraram e 33,3% diminuíram o volume ​d​e recursos conforme dados da pesquisa Valor Inovação Brasil. Dos nove laboratórios farmacêuticos presentes no ranking geral, 77,8% destinaram mais do que 5% do faturamento a inovação, enquanto 11,5% aplicaram um valor entre 4% e 5% da receita de vendas. A maior parte mantém parcerias com instituições de pesquisa. Depois da indústria petroquímica, o setor farmacêutico é o que mais utiliza esse tipo de colaboração para promover P&D - 89% dos laboratórios afirmam adotara estratégia.

 

As inovações farmacêuticas podem ser radicais e consistem em descobrir moléculas e desenvolver princípios ativos, inéditos no mundo, ou incrementais, quando os laboratórios desenvolvem novas apresentações, associações, formulações ou indicações já existentes no país ou introduzem no mercado brasileiro princípios ativos já existentes em outros países.

 

Exemplo de inovação radical é o anti-inflamatório Acheflan, do Aché, produzido a partir do extrato de uma planta da Mata Atlântica, a Cordia verbenacea DC, e lançado em 2005, que levou 15 anos para ser desenvolvido. Entre os produtos de 2015, está uma inovação incremental, o Donila Duo, indicado para tratamento do mal de Alzheimer e criado com a associação inédita de duas substâncias - donepezila e memantina.

 

No posto de empresa mais inovadora do setor farmacêutico e 17​ª​ no ranking geral do anuário, o Aché aposta em P&D como diferencial para se internacionalizar. A empresa já exporta para América Latina, Africa e Japão, mas quer alcançar mercados da Europa, Ásia e América do Norte com produtos inovadores, como o Donila Duo.

 

Para isso, busca associação com empresas internacionais, como a Ferring Pharmaceuticals, com a qual vai construir em parceria um laboratório para inovação incremental, que ficará pronto em 2017, dentro do complexo da empresa em Guarulhos, na Grande São Paulo. Entre os projetos mais avançados, para os quais o Aché busca parceiros internacionais, está um fitoterápico oral para tratamento de vitiligo e um medicamento sintético para ansiedade.

 

Com capital 100% nacional criada em 1966, o laboratório Aché conta com quatro complexos industriais em Guarulhos (SP), São Paulo (SP), Londrina (PR) e Anápolis (GO). Com receita líquida de R$ 2,3 bilhões no ano passado, 9,3% superior a 2014, a empresa acumula um portfólio de 316 marcas em 762 apresentações. Também atua na área de dermocosméticos e nutracêuticos. Desde 2012, opera com biotecnologia, por meio da Bionovis, joint-venture que compartilha com a União Química, Hypermarcas e EMS.

 

O Aché lançou 25 produtos no mercado nacional no ano passado e prevê outros 25 para 2016. "Este é o momento mais inovador do Aché", diz Cristiano Guimarães. A empresa montou em 2015 um núcleo composto por cinco diretorias envolvidas em inovação para dar maior agilidade à renovação do portfólio e ao lançamento cie novos medicamentos.

 

Um dos frutos do trabalho desse núcleo foi a criação do Laboratório de Design e Síntese Molecular, inaugurado em novembro de 2015, dentro do novo Centro de Inovação Radical da empresa, em Guarulhos. E lá que o Aché vai desenvolver moléculas-sondas para o Structural Genomics Consortium (SGC), parceria internacional entre universidades, governos e indústrias para acelerar o desenvolvimento de novos remédios, na qual ingressou em abril de 2016.

 

Segunda colocada no ranking do setor e na 38​ª​ posição do ranking geral, a Janssen, empresa farmacêutica do grupo Johnson & Johnson, definiu cinco áreas como foco de estratégia global de inovação: oncologia e hematologia, imunologia, neurociências, doenças infecciosas e vacinas e cardiovascular e metabolismo. No Brasil, a empresa já lançou nove medicamentos nessas áreas desde 2012 e, até 2019, pretende lançar outros dez produtos e 40 novas extensões de linhas ou indicações terapêuticas de produtos já aprovados. Em 2015, foram lançados quatro produtos - para hepatite C, leucemia linfoide crônica, doença de Castleman multicêntrica e diabetes tipo 2.

 

Em 2015, a empresa investiu mundialmente U$S 6,8 bilhões em P&D, correspondentes a 21,7% das vendas. No Brasil, a equipe especializada em HIV, hepatite C, esquizofrenia, artrite reumatoide, psoríase, câncer de próstata, mielomas e Iinfomas testa em estudos clínicos os ativos criados no exterior. Em 2015, a empresa coordenou 48 projetos no país, em parceria com 723 instituições de pesquisa.

 

O modelo de inovação da Janssen combina desenvolvimento interno com parceria externa, promovida nos cinco "inovation centers", centros de incubação de novas empresas e projetos de negócios para gerar inovação, localizados nos Estados Unidos, Inglaterra e China. Alguns desses projetos são brasileiros. "São empresas iniciantes, que não teriam capacidade para desenvolver o trabalho", diz Bruno Costa Gabriel, presidente da Janssen Brasil.

 

Com 89 patentes concedidas e mais de 300 produtos licenciados no exterior, dos quais 80% sob titularidade própria e 20% de parceiros, o Laboratório Cristália destina 8% do faturamento a P&D e inovação. Entre 2011 e 2015, a receita de vendas dobrou, para RS 1,6 bilhão, incluindo exportações para América Latina, Africa e Oriente Médio.

 

A expectativa é aumentaras exportações, de 7% para 15% do faturamento total, com novos produtos exclusivos. Entre eles, um hormônio de crescimento humano e uma versão do princípio ativo colagenase, utilizado na fabricação de pomadas para queimaduras, criada pelo Cristália por meio de cultura vegetal e não animal, o que o toma livre de contágio do mal da vaca louca.

 

"A maioria dos laboratórios nacionais trabalha com genéricos, opção que não Fizemos. Decidimos trabalhar em produtos com características diferenciadas e exclusivos em determinados nichos", diz o médico psiquiatra Ogari Pacheco, presidente e fundador da empresa. A estratégia é reforçada por parcerias com universidades e entidades de pesquisa brasileiras e instituições internacionais. A empresa atua na área hospitalar e farma, com produtos para disfunção erétil, esquizofrenia, distúrbio bipolar e depressão, com ênfase na dor, inflamação, dermatologia e ginecologia.

 

Terceiro no ranking de em presas farmacêuticas mais inovadoras e 43°. no ranking geral, o Cristália produz 53% dos princípios ativos que utiliza e já desenvolveu cerca de 200 medicamentos e 400 apresentações farmacêuticas inovadoras no complexo industrial em Itapira (SP). De capital 100% nacional, o laboratório é responsável pela produção do primeiro medicamento totalmente desenvolvido no Brasil, o Helleva, para disfunção erétil, lançado em 2007. "A ideia é fabricar os produtos mais complexos, de maior valor agregado, e importar os mais simples", diz Pacheco.

 

A Biolab Sanus, por sua vez, começou, 19 anos atrás, fabricando medicamentos similares, aqueles que contêm os mesmos princípios ativos e características dos produtos de referência registrados na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Nos últimos dez anos, passou a fabricar medicamentos inovadores, responsáveis por 50% do faturamento. "Produzimos mais do que uma molécula por ano, com desenvolvimento próprio ou de parceiros", diz Cleiton de Castro Marques, CEO da Biolab.

 

As primeiras inovações foram incrementais, como o medicamento Vonau, para prevenção de náusea e vômito, desenvolvido em conjunto com a Universidade de São Paulo (USP) e lançado em 2008. Com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), criou uma plataforma de nanotecnologia que resultou em um dermocosmético específico para proteção solar após procedimentos médicos, lançado em 2009, e o primeiro nanoanestésico tópico do mundo, submetido a apreciação da Anvisa no final de 2015.

 

O laboratório, que emprega 7% do faturamento em P&D, dedica-se agora também a inovações radicais. A primeira molécula que desenvolveu, o antifúngico dapaconazol, lançado em 2015 e submetido a registro na Anvisa na forma da pomada Zilt,já é patenteado em vários países. O principal mercado visado, segundo Marques, é de antifúngico injetáveis, que movimenta US$ 15 bilhões. A formulação está em fase de estudos clínicos. A Biolab vai inaugurar neste ano um centro de pesquisas em Toronto, para adequar os produtos aos padrões do Food and Drug Administration (FDA) e da European Medicines Agency (EMEA).

 

Quinta entre as mais inovadoras do setor e 48​ª​ no ranking geral, a Sanofi investiu, em 2015, 14 milhões de euros em pesquisa clínica no Brasil. São 56 estudos, 30 dos quais para medicamentos biológicos. No mun​d​o todo, o grupo destinou no ano passado 14% do faturamento líquido, de 5 bilhões de euros, para P&D, sendo que mais de 20% do faturamento no país veio de lançamentos de novos medicamentos, segundo Eduardo Novaes, diretor de "business support" do grupo Sanofi no Brasil. 

 

Entre os produtos que a Sanofi está trazendo para o Brasil está a primeira vacina do mundo contra a dengue, que levou mais de 20 anos para ser desenvolvida, já lançada no México e Filipinas e em análise pela Anvisa. Até 2018, a Sanofi pretende lançar mais quatro produtos no país.​

 

Fonte: Valor Econômico